Tal como o longo inverno que atravessámos e os primeiros raios de sol que agora nos confortam, assim poderemos assemelhar, num contexto paradoxal, o período do episcopado de D. Manuel da Rocha Felício (01-12-2005 – 20-12-2024), que durante mais de 19 anos liderou a Diocese da Guarda. Agora, abre-se um novo capítulo com a nomeação de D. José Miguel Barata Pereira, trazendo renovadas expectativas para o futuro da diocese.
São do meu tempo, desta diocese a que sempre pertenci, os bispos D. Domingos da Silva Gonçalves (1952-1960), que ainda conheci, nas suas visitas à Covilhã e num evento dos movimentos operários católicos, realizados no grande salão da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, onde então eu estudava. Sucedeu-lhe D. Policarpo da Costa Vaz (1960-1979), vindo da diocese de Macau, para a da Guarda, sendo nomeado em 09-07-1960. Na escola Campos Melo, por ele fui crismado, na década de 60. Sucedeu-lhe D. António dos Santos (1979-2005), eleito bispo da Guarda em dezembro de 1979.
A Diocese da Guarda foi fundada originalmente na cidade romana da Egitânia (atual Idanha-a-Velha). Face ao declínio acentuado desta última, sobretudo após o domínio muçulmano, o rei D. Sancho I de Portugal fundou, em 1199, mais a Norte, uma nova cidade (a Guarda), provendo-a com o bispo da Idanha, funcionando desde então aí a sede da diocese que, em latim, retém o velho nome de Dioecesis AEgitaniensis.
O seu território abrange, no distrito de Castelo Branco, os municípios de Belmonte, Covilhã, Fundão e Penamacor, e ainda as freguesias do município de Castelo Branco (Almaceda, Louriçal do Campo, Ninho do Açor e São Vicente da Beira); no distrito de Coimbra, a freguesia de São Gião (município de Oliveira do Hospital); no distrito da Guarda, os municípios de Almeida, Celorico da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Gouveia, Guarda, Manteigas, Pinhel, Sabugal, Seia, Trancoso, três freguesia do município de Fornos de Algodres (Juncais, Vila Ruiva e Vila Soeiro do Chão, sendo esta apenas civil) e duas freguesias de Vila Nova de Foz Coa (Almendra e Castelo Melhor).
Abrange uma área de 6 759 Km2 e uma população estimada em 250 000 habitantes (96% católicos).
Bispos dados pelo Seminário da Guarda
D. José do Patrocínio Dias. Nasceu na freguesia de S. Pedro, Covilhã em 23-07-1884, tendo iniciado os preparatórios na Guarda, em 1895, fazendo o ensino secundário no extinto Colégio de S. Fiel (Louriçal do Campo). Cursou, em seguida, a Faculdade de Teologia de Coimbra (1902-1907), cidade onde trabalhou na Conferência de S. Vicente de Paulo e em atividades apostólicas no meio estudantil. Ordenado sacerdote em 21-12-1907, celebrou a primeira missa na sua terra natal (Covilhã), e logo D. Manuel Vieira de Matos o chamou para a Guarda, onde paroquiou a igreja de S. Vicente. Em 1908, encontramo-lo na organização do Congresso das Associações Católicas da Covilhã. Nomeado cónego da Sé da Guarda, desempenhou as funções de notário apostólico (07-12-1914). Nesse mesmo ano, quando o governo republicano expedia soldados cristãos para a guerra, sem cuidar no mínimo da assistência espiritual, gerou-se na Guarda e em Lisboa um grande movimento de voluntariado de padres capelães. O movimento foi coordenado pelo patriarca D. António Mendes Melo, que nomeou o Padre José do Patrocínio Dias chefe dos capelães militares do Corpo Expedicionário Português. Saiu da Guarda em 14 de março de 1917. O Padre José do Patrocínio Dias recebeu vários louvores e condecorações (Comenda da Ordem de Cristo com palma (10-07-1920), Cruz de Guerra de 2ª. Classe (21-03-1921) e Medalha de Prata de Classe dos bons Serviços (22-08-1919), Grã-Cruz da Ordem de Benemerência, Cruz de Oficial da Legião de Honra (França) e o título de Conde Romano e Assistente ao Sólio Pontifício. Preconizado bispo de Beja (06-12-1920), foi sagrado na Sé da Guarda (03-06-1921), entrando na diocese no ano seguinte (05-02-1922).
Apesar dos serviços prestados à Pátria, foi recebido em Beja de um modo contraditório, com manifestações de hostilidade, provindas de grupos criptocomunistas. As autoridades pacenses fizeram que não viram, e D. José aceitou os vexames com apostólica dignidade. Num meio quase descristianizado, o bispo Patrocínio teve de fazer quase tudo de novo, mormente no setor assistencial. Ultrapassou muitas das dificuldades da igreja pacense. Ainda teve tempo para, em 1928, desempenhar as funções de Superior (interino) do Colégio das Missões Ultramarinas.
Da época deste bispo é também D. José da Cruz Moreira Pinto, natural do Tortosendo (29-12-1887). Do Seminário de S. Vicente de Fora em Lisboa, saiu em 1903 vindo para o da Guarda, onde concluiu Teologia em 1908, recebendo ordens de presbítero na Guarda em 16-01-1910. Em 1913, vai para a Universidade Católica de Lovaina mas a guerra de 1914 obriga-o a voltar ao país, indo pouco tempo depois, de novo para a Bélgica onde concluiu o curso (1921). Preconizado bispo de Viseu (09-05-1928), é sagrado em Évora, em 15 de junho pelo arcebispo eborense.
D. João de Oliveira Matos Ferreira, natural de Valverde, Fundão (01-03-1879), faleceu na Guarda em 29.08-1962. Frequentou o liceu de Castelo Branco e concluiu Teologia na Guarda (1899). Enquanto esperava a idade canónica para receber as ordens, residiu no Fundão. Quando a atingiu já a diocese estava sem bispo, por morte de D. Tomaz, pelo que o padre João de Oliveira Matos foi ordenado pelo bispo de Viseu em 28 de março de 1903. Neste mesmo ano era nomeado capelão do Colégio de Nª Sª de Lourdes e pároco de Santa Maria Maior (Covilhã), cidade onde colaborou na fundação dos Círculos Operários. Em 1904, o bispo Vieira de Matos chamou-o para a Guarda, criando, em 1924 a Liga dos Servos de Jesus. Nomeado bispo de Aureópolis e auxiliar da Guarda (1922), depois de 1927 fixou-se na sede da sua obra, no Outeiro de S. Miguel, continuando a servir a Ação Católica e outras obras diocesanas. A sua exemplaridade irradiou em vida, e ainda depois de morto, pelo que, há anos, decorre o processo da sua beatificação.
D. João António da Silva Saraiva, natural de Seia (20-09-1923), concluiu Teologia no Seminário da Guarda (28-07-1946), sendo aqui professor de Filosofia.
Bispos da Egitânia
1.Adorico (561 – 572); 2. Comundo (589); 3. Licério (597 – 610); 4. Montésis, Montésio, Montênsis, Mentésio (633 – 638); 5. Arménio (646); 6. Siclua, Selua (653-666); 7. Monefonso (683-688); 8. Argesindo (693).
Bispos da Guarda
1.D. Rodrigo (1199). Carlos Oliveira considera e defende a existência de D. Rodrigo que, em 1229, aparece como bispo, numa doação feita à Covilhã.; 2.D. Martinho Pais (1200-1225). Teve de se haver com os bispos de Coimbra e de Viseu por causa de problemas de jurisdição territorial, mormente nas Igrejas da Covilhã, Guarda e Castelo Mendo. 3.D. Vicente Hispano (1226 – 1248); 4.D. Rodrigo Fernandes (1248 – 1267); 5.D. Frei Vasco (1267 – 1278); 6. D. Frei João Martins (1278-1301); 7.D. Vasco Martins de Alvelos (1302-1313); 8. D. Rodrigo III (1313); 9.D. Estêvão (1314-1316); 10.D. Martinho II (1319-1322), médico de D. Dinis, tendo sido provido no bispado a instâncias da Rainha Santa Isabel; 11.D. Guterre I (ou D. Gil) (1322-1326); 12. D. Bartolomeu de Silves (1326-1345); 13-D. Afonso Dinis (1346-1347); 14.D. Lourenço Rodrigues (1349-1356); 15-D. Estêvão Tristão (1357-1360); 16- D. Gil Cabral I, ou D. Gil de Viana (1360-1362). Filho segundo de Aires Cabral, alcaide-mor de Portalegre, era deão da Sé da Guarda quando (1354) assistiu ao casamento de D. Pedro e de D. Inês, em Bragança. Ascendente dos Cabral de Belmonte, governou dois anos; 17. D. Vasco de Menezes (1362-1367); 18. D. Gonçalo Martins (1367); 19. D. Afonso Correia (1367-1384); 20. D. Frei Vasco de Lamego (1384-1391). Participou nas Cortes de 1385, 1387 e 1391, e, com D. João I, deu início à construção da nova Sé; 21. D. Afonso Ferraz (Provido no bispado cerca de 1390-1396); 22. D. Gil II (1397); 23. D. Gonçalo Vasques da Cunha (1397-1426). Protetor dos pobres e homem de cultura, deu início ao levantamento das paredes da Sé nova, e doou a biblioteca ao Cabido; 24. D. Luís da Guerra (1427-1458); 25. D. Frei João Manuel (1459-1476). Era filho natural de D. Duarte, rei, e neto de D. Henrique Manuel, conde de Seia. Criado por Nuno Álvares Pereira no convento do Carmo, foi provincial desta Ordem (1441) e fez parte da embaixada de Rui da Cunha a Roma, para obter do Papa a dispensa para o casamento de D. Afonso V, com sua prima D. Isabel; 26. D. João Afonso Ferraz (1477-1478); 27.D. Álvaro de Chaves (1479-1481) primeira vez; 28. D. Garcia de Menezes (1481-1484) administrador apostólico. Humanista por Paris, seguiu a vida militar, onde deu provas de mérito, mas logo a deixou pela carreira eclesiástica, onde, por distinção e valor, foi elevado a bispo de Évora (1471), o que não o impediu de participar na Batalha de Toro (1476), dando mostras de lealdade e valentia, no comando dos espingardeiros. Acumulou o governo de Évora e da Guarda, até à morte, tomando parte na conspiração chefiada pelo duque de Viseu contra D. João II, sendo detido em masmorras de Palmela, onde expirou; 29. D. Álvaro de Chaves (1484-1496) segunda vez; 30. D. Pedro Vaz Gavião (1496-1516). Transladou para Santa Cruz, Coimbra, os restos mortais de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I; 31. Cardeal Infante D. Afonso de Portugal (1516-1519), depois bispo de Viseu e, em acumulação, bispo de Évora e arcebispo de Lisboa. Filho de D. Manuel e de D. Maria, foi provido aos sete anos de idade (10-09-1516), a pedido do pai, por Leão X; 32. D. Miguel da Silva (1516-1519), administrador apostólico; 33. D. Jorge de Melo (1519-1548). Tendo estudado em Paris, mudou-se para Roma, onde foi protegido do Cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa. Excomungado por Paulo III, o governo do bispado foi cometido ao Núncio Apostólico, apesar de, juridicamente, o episcopado de D. Jorge de Melo, ter durado 29 anos, até 1548; 34. D. Cristóvão de Castro (1550-1552). Filho do cavaleiro D. Rodrigo de Castro, deão da capela real e capelão-mor da infanta D. Maria, era prior de S. Vicente e do Souto da Casa, do Padroado Real. No tempo em que D. João III pensava subtrair Portalegre ao bispado egitaniense, decidiu nomear D. Cristóvão de Castro para a Guarda, não sem dificuldades, por ser filho ilegítimo. O novo bispo assumiu o governo do bispado, apesar de residir na Covilhã, onde faleceu, sendo sepultado na igreja do convento de S. Francisco, na capela de sua família. 35. D. João de Portugal (1556-1585); 36. D. Manuel de Quadros (1585-1593); 37. D. Nuno de Noronha (1593-1608), também bispo de Viseu; 38. D. Afonso Furtado de Mendonça (1609-1616), também bispo de Coimbra -conde de Arganil, arcebispo de Braga, arcebispo de Lisboa e vice-rei de Portugal. 39. D. Francisco de Castro (1617-1630); 40. D. Frei Lobo de Sequeira Pereira (1632-1636); 41. D. Dinis de Melo e Castro (1639). D. Diogo Lobo (1640), eleito, não confirmado pelo Papa; D. Pedro de Lencastre, depois arcebispo de Évora e arcebispo de Braga, 5.º Duque de Aveiro, não confirmado pelo Papa. 42. D. Frei Álvaro de São Boaventura (1669-1672); 43. D. Martim Afonso de Melo (1672-1684); 44. D. Frei Luís da Silva (1685-1691); 45. D. João de Mascarenhas (1692-1693); 46. D. Rodrigo (ou Rui) de Moura Telles (1694-1704), também arcebispo de Braga; 47. D. António de Saldanha (1705-1711); 48. D. João de Mendonça (1713-1736). Voltou à diocese em 23-08-1720, fixando residência em Castelo Branco, onde faleceu; 49. D. Frei José Fialho (1739-1741); 50. D. Bernardo António de Mello Osório (1742-1774); 51. D. Jerónimo Rogado do Carvalhal e Silva (1775-1797); 52.D. José António Pinto de Mendonça Arrais (1797-1822). Tomou posse da cátedra egitaniense em 25-02-1798. Quando, em 1808, as Beiras sofreram os efeitos das invasões francesas, o bispo Arrais emitiu (10-01-1808) uma Pastoral convocando os fiéis para receberem os franceses, “sem lhes fazer a mais leve ofensa” e para que aos franceses fosse dado “todo o socorro de que necessitarem”. O bispo viu-se acusado de francófilo e de traidor, por obrigar os fiéis a receberem os invasores “quais divinos mensageiros”. De facto, a Pastoral de Arrais foi publicada de acordo com as instruções do Príncipe Regente, tendo em vista a ideia de que a receção passiva seria melhor para o sossego e para a tranquilidade pública. A tese dos acusadores tirava prova das Ordens (15-02-1808 e 07-03-1808) que o bispo dera para entrega do oiro e da prata das igrejas aos invasores. Facto é que, tal como a Regência, o bispo Arrais partia do princípio de perder os anéis para salvar os dedos e, tanto assim que (09-07-1808) expediu uma Pastoral contra Junot, em que explicava os motivos da sua posição anterior, e instruía os fiéis para a resistência aos invasores. Persistiu nesta posição, publicando sucessivas pastorais contra Soult e Massena; 53. D. Frei Carlos de São José de Azevedo e Moura (ou Azevedo e Sousa) (1824-1828). Pregador da capela real, acompanhou D. João VI na viagem para o Brasil, onde o monarca o pretendeu nomear (1821) bispo de Cuiabá e Mato Grosso, mas sem efeito porque o nomeado não aceitou em virtude de achar que ficava longe da pátria. Em 1823 viu-se eleito bispo da Guarda, sendo sagrado na capela da Bemposta, em 1824; 54. D. Joaquim José Pacheco de Sousa (1832-1857); 55. D. Manuel Martins Manso (1858-1878): 56. D. Tomás Gomes de Almeida (1883-1903). Apoiou a construção do Hospital da Misericórdia e do Sanatório Sousa Martins, fomentou as campanhas a favor dos doentes e dos pobres, fundou as Conferências de São Vicente de Paulo e efetuou obras na Catedral. Mereceu a admiração e o apreço até dos adversários da Igreja. Jaz na Sé da Guarda; 57. D. Manuel Vieira de Matos (1903-1914); 58. D. José Alves Mattoso (1914-1952). Este bispo contou com dois auxiliares: D. José Augusto da Rocha Noronha, e D. João de Oliveira Matos, tendo nascido em Valverde, Fundão no dia 01-03-1879 e falecido na Guarda, em 29-08-1962. Paroquiou na Covilhã e em Celorico da Beira e ensinou no seminário. Fundou a Liga dos Servos de Jesus. Tido como santo, foi grande a sua influência na espiritualidade da diocese; 59. D. Domingos da Silva Gonçalves (1952-1960); 60. D. Policarpo da Costa Vaz (1960-1979); 61. D. António dos Santos (1979-2005); 62. D. Manuel da Rocha Felício (2005-2024); 63. D. José Miguel Barata Pereira (desde 2024).
Bibliografia consultada: História da Diocese da Guarda, de J. Pinharanda Gomes.
João de Jesus Nunes
jjnunes6200@gmail.com
(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 02-04-2025)