2 de abril de 2025

A DIOCESE DA GUARDA E OS SEUS BISPOS

 


Tal como o longo inverno que atravessámos e os primeiros raios de sol que agora nos confortam, assim poderemos assemelhar, num contexto paradoxal, o período do episcopado de D. Manuel da Rocha Felício (01-12-2005 – 20-12-2024), que durante mais de 19 anos liderou a Diocese da Guarda. Agora, abre-se um novo capítulo com a nomeação de D. José Miguel Barata Pereira, trazendo renovadas expectativas para o futuro da diocese.

São do meu tempo, desta diocese a que sempre pertenci, os bispos D. Domingos da Silva Gonçalves (1952-1960), que ainda conheci, nas suas visitas à Covilhã e num evento dos movimentos operários católicos, realizados no grande salão da Escola Industrial e Comercial Campos Melo da Covilhã, onde então eu estudava.  Sucedeu-lhe D. Policarpo da Costa Vaz (1960-1979), vindo da diocese de Macau, para a da Guarda, sendo nomeado em 09-07-1960. Na escola Campos Melo, por ele fui crismado, na década de 60. Sucedeu-lhe D. António dos Santos (1979-2005), eleito bispo da Guarda em dezembro de 1979.

A Diocese da Guarda foi fundada originalmente na cidade romana da Egitânia (atual Idanha-a-Velha). Face ao declínio acentuado desta última, sobretudo após o domínio muçulmano, o rei D. Sancho I de Portugal fundou, em 1199, mais a Norte, uma nova cidade (a Guarda), provendo-a com o bispo da Idanha, funcionando desde então aí a sede da diocese que, em latim, retém o velho nome de Dioecesis AEgitaniensis. 

O seu território abrange, no distrito de Castelo Branco, os municípios de Belmonte, Covilhã, Fundão e Penamacor, e ainda as freguesias do município de Castelo Branco (Almaceda, Louriçal do Campo, Ninho do Açor e São Vicente da Beira); no distrito de Coimbra, a freguesia de São Gião (município de Oliveira do Hospital); no distrito da Guarda, os municípios de Almeida, Celorico da Beira, Figueira de Castelo Rodrigo, Gouveia, Guarda, Manteigas, Pinhel, Sabugal, Seia, Trancoso, três freguesia do município de Fornos de Algodres (Juncais, Vila Ruiva e Vila Soeiro do Chão, sendo esta apenas civil) e duas freguesias de Vila Nova de Foz Coa (Almendra e Castelo Melhor).

Abrange uma área de 6 759 Km2 e uma população estimada em 250 000 habitantes (96% católicos). 

Bispos dados pelo Seminário da Guarda

D. José do Patrocínio Dias. Nasceu na freguesia de S. Pedro, Covilhã em 23-07-1884, tendo iniciado os preparatórios na Guarda, em 1895, fazendo o ensino secundário no extinto Colégio de S. Fiel (Louriçal do Campo). Cursou, em seguida, a Faculdade de Teologia de Coimbra (1902-1907), cidade onde trabalhou na Conferência de S. Vicente de Paulo e em atividades apostólicas no meio estudantil. Ordenado sacerdote em 21-12-1907, celebrou a primeira missa na sua terra natal (Covilhã), e logo D. Manuel Vieira de Matos o chamou para a Guarda, onde paroquiou a igreja de S. Vicente. Em 1908, encontramo-lo na organização do Congresso das Associações Católicas da Covilhã. Nomeado cónego da Sé da Guarda, desempenhou as funções de notário apostólico (07-12-1914). Nesse mesmo ano, quando o governo republicano expedia soldados cristãos para a guerra, sem cuidar no mínimo da assistência espiritual, gerou-se na Guarda e em Lisboa um grande movimento de voluntariado de padres capelães. O movimento foi coordenado pelo patriarca D. António Mendes Melo, que nomeou o Padre José do Patrocínio Dias chefe dos capelães militares do Corpo Expedicionário Português. Saiu da Guarda em 14 de março de 1917. O Padre José do Patrocínio Dias recebeu vários louvores e condecorações (Comenda da Ordem de Cristo com palma (10-07-1920), Cruz de Guerra de 2ª. Classe (21-03-1921) e Medalha de Prata de Classe dos bons Serviços (22-08-1919), Grã-Cruz da Ordem de Benemerência, Cruz de Oficial da Legião de Honra (França) e o título de Conde Romano e Assistente ao Sólio Pontifício. Preconizado bispo de Beja (06-12-1920), foi sagrado na Sé da Guarda (03-06-1921), entrando na diocese no ano seguinte (05-02-1922).

Apesar dos serviços prestados à Pátria, foi recebido em Beja de um modo contraditório, com manifestações de hostilidade, provindas de grupos criptocomunistas. As autoridades pacenses fizeram que não viram, e D. José aceitou os vexames com apostólica dignidade. Num meio quase descristianizado, o bispo Patrocínio teve de fazer quase tudo de novo, mormente no setor assistencial. Ultrapassou muitas das dificuldades da igreja pacense. Ainda teve tempo para, em 1928, desempenhar as funções de Superior (interino) do Colégio das Missões Ultramarinas. 

Da época deste bispo é também D. José da Cruz Moreira Pinto, natural do Tortosendo (29-12-1887). Do Seminário de S. Vicente de Fora em Lisboa, saiu em 1903 vindo para o da Guarda, onde concluiu Teologia em 1908, recebendo ordens de presbítero na Guarda em 16-01-1910. Em 1913, vai para a Universidade Católica de Lovaina mas a guerra de 1914 obriga-o a voltar ao país, indo pouco tempo depois, de novo para a Bélgica onde concluiu o curso (1921). Preconizado bispo de Viseu (09-05-1928), é sagrado em Évora, em 15 de junho pelo arcebispo eborense. 

D. João de Oliveira Matos Ferreira, natural de Valverde, Fundão (01-03-1879), faleceu na Guarda em 29.08-1962. Frequentou o liceu de Castelo Branco e concluiu Teologia na Guarda (1899). Enquanto esperava a idade canónica para receber as ordens, residiu no Fundão. Quando a atingiu já a diocese estava sem bispo, por morte de D. Tomaz, pelo que o padre João de Oliveira Matos foi ordenado pelo bispo de Viseu em 28 de março de 1903. Neste mesmo ano era nomeado capelão do Colégio de Nª Sª de Lourdes e pároco de Santa Maria Maior (Covilhã), cidade onde colaborou na fundação dos Círculos Operários. Em 1904, o bispo Vieira de Matos chamou-o para a Guarda, criando, em 1924 a Liga dos Servos de Jesus. Nomeado bispo de Aureópolis e auxiliar da Guarda (1922), depois de 1927 fixou-se na sede da sua obra, no Outeiro de S. Miguel, continuando a servir a Ação Católica e outras obras diocesanas. A sua exemplaridade irradiou em vida, e ainda depois de morto, pelo que, há anos, decorre o processo da sua beatificação.

D. João António da Silva Saraiva, natural de Seia (20-09-1923), concluiu Teologia no Seminário da Guarda (28-07-1946), sendo aqui professor de Filosofia. 

 Bispos da Egitânia

1.Adorico (561 – 572); 2. Comundo (589); 3. Licério (597 – 610); 4. Montésis, Montésio, Montênsis, Mentésio (633 – 638); 5. Arménio (646); 6. Siclua, Selua (653-666); 7. Monefonso (683-688); 8. Argesindo (693).

Bispos da Guarda

1.D. Rodrigo (1199). Carlos Oliveira considera e defende a existência de D. Rodrigo que, em 1229, aparece como bispo, numa doação feita à Covilhã.; 2.D. Martinho Pais (1200-1225). Teve de se haver com os bispos de Coimbra e de Viseu por causa de problemas de jurisdição territorial, mormente nas Igrejas da Covilhã, Guarda e Castelo Mendo. 3.D. Vicente Hispano (1226 – 1248); 4.D. Rodrigo Fernandes (1248 – 1267); 5.D. Frei Vasco (1267 – 1278); 6. D. Frei João Martins (1278-1301); 7.D. Vasco Martins de Alvelos (1302-1313); 8. D. Rodrigo III (1313); 9.D. Estêvão (1314-1316); 10.D. Martinho II (1319-1322), médico de D. Dinis, tendo sido provido no bispado a instâncias da Rainha Santa Isabel; 11.D. Guterre I (ou D. Gil) (1322-1326); 12. D. Bartolomeu de Silves (1326-1345); 13-D. Afonso Dinis (1346-1347); 14.D. Lourenço Rodrigues (1349-1356); 15-D. Estêvão Tristão (1357-1360); 16- D. Gil Cabral I, ou D. Gil de Viana (1360-1362). Filho segundo de Aires Cabral, alcaide-mor de Portalegre, era deão da Sé da Guarda quando (1354) assistiu ao casamento de D. Pedro e de D. Inês, em Bragança. Ascendente dos Cabral de Belmonte, governou dois anos; 17. D. Vasco de Menezes (1362-1367); 18. D. Gonçalo Martins (1367); 19. D. Afonso Correia (1367-1384); 20. D. Frei Vasco de Lamego (1384-1391). Participou nas Cortes de 1385, 1387 e 1391, e, com D. João I, deu início à construção da nova Sé; 21. D. Afonso Ferraz (Provido no bispado cerca de 1390-1396); 22. D. Gil II (1397); 23. D. Gonçalo Vasques da Cunha (1397-1426). Protetor dos pobres e homem de cultura, deu início ao levantamento das paredes da Sé nova, e doou a biblioteca ao Cabido; 24. D. Luís da Guerra (1427-1458); 25. D. Frei João Manuel (1459-1476). Era filho natural de D. Duarte, rei, e neto de D. Henrique Manuel, conde de Seia. Criado por Nuno Álvares Pereira no convento do Carmo, foi provincial desta Ordem (1441) e fez parte da embaixada de Rui da Cunha a Roma, para obter do Papa a dispensa para o casamento de D. Afonso V, com sua prima D. Isabel; 26. D. João Afonso Ferraz (1477-1478); 27.D. Álvaro de Chaves (1479-1481) primeira vez; 28. D. Garcia de Menezes (1481-1484) administrador apostólico. Humanista por Paris, seguiu a vida militar, onde deu provas de mérito, mas logo a deixou pela carreira eclesiástica, onde, por distinção e valor, foi elevado a bispo de Évora (1471), o que não o impediu de participar na Batalha de Toro (1476), dando mostras de lealdade e valentia, no comando dos espingardeiros. Acumulou o governo de Évora e da Guarda, até à morte, tomando parte na conspiração chefiada pelo duque de Viseu contra D. João II, sendo detido em masmorras de Palmela, onde expirou; 29. D. Álvaro de Chaves (1484-1496) segunda vez; 30. D. Pedro Vaz Gavião (1496-1516). Transladou para Santa Cruz, Coimbra, os restos mortais de D. Afonso Henriques e de D. Sancho I; 31. Cardeal Infante D. Afonso de Portugal (1516-1519), depois bispo de Viseu e, em acumulação, bispo de Évora e arcebispo de Lisboa. Filho de D. Manuel e de D. Maria, foi provido aos sete anos de idade (10-09-1516), a pedido do pai, por Leão X; 32. D. Miguel da Silva (1516-1519), administrador apostólico; 33. D. Jorge de Melo (1519-1548). Tendo estudado em Paris, mudou-se para Roma, onde foi protegido do Cardeal de Alpedrinha, D. Jorge da Costa. Excomungado por Paulo III, o governo do bispado foi cometido ao Núncio Apostólico, apesar de, juridicamente, o episcopado de D. Jorge de Melo, ter durado 29 anos, até 1548; 34. D. Cristóvão de Castro (1550-1552). Filho do cavaleiro D. Rodrigo de Castro, deão da capela real e capelão-mor da infanta D. Maria, era prior de S. Vicente e do Souto da Casa, do Padroado Real. No tempo em que D. João III pensava subtrair Portalegre ao bispado egitaniense, decidiu nomear D. Cristóvão de Castro para a Guarda, não sem dificuldades, por ser filho ilegítimo. O novo bispo assumiu o governo do bispado, apesar de residir na Covilhã, onde faleceu, sendo sepultado na igreja do convento de S. Francisco, na capela de sua família. 35. D. João de Portugal (1556-1585); 36. D. Manuel de Quadros (1585-1593); 37. D. Nuno de Noronha (1593-1608), também bispo de Viseu; 38. D. Afonso Furtado de Mendonça (1609-1616), também bispo de Coimbra -conde de Arganil, arcebispo de Braga, arcebispo de Lisboa e vice-rei de Portugal. 39. D. Francisco de Castro (1617-1630); 40. D. Frei Lobo de Sequeira Pereira (1632-1636); 41. D. Dinis de Melo e Castro (1639). D. Diogo Lobo (1640), eleito, não confirmado pelo Papa; D. Pedro de Lencastre, depois arcebispo de Évora e arcebispo de Braga, 5.º Duque de Aveiro, não confirmado pelo Papa. 42. D. Frei Álvaro de São Boaventura (1669-1672); 43. D. Martim Afonso de Melo (1672-1684); 44. D. Frei Luís da Silva (1685-1691); 45. D. João de Mascarenhas (1692-1693); 46. D. Rodrigo (ou Rui) de Moura Telles (1694-1704), também arcebispo de Braga; 47. D. António de Saldanha (1705-1711); 48. D. João de Mendonça (1713-1736). Voltou à diocese em 23-08-1720, fixando residência em Castelo Branco, onde faleceu; 49. D. Frei José Fialho (1739-1741); 50. D. Bernardo António de Mello Osório (1742-1774); 51. D. Jerónimo Rogado do Carvalhal e Silva (1775-1797); 52.D. José António Pinto de Mendonça Arrais (1797-1822). Tomou posse da cátedra egitaniense em 25-02-1798. Quando, em 1808, as Beiras sofreram os efeitos das invasões francesas, o bispo Arrais emitiu (10-01-1808) uma Pastoral convocando os fiéis para receberem os franceses, “sem lhes fazer a mais leve ofensa” e para que aos franceses fosse dado                                                                                                                                                                                                                   “todo o socorro de que necessitarem”. O bispo viu-se acusado de francófilo e de traidor, por obrigar os fiéis a receberem os invasores “quais divinos mensageiros”. De facto, a Pastoral de Arrais foi publicada de acordo com as instruções do Príncipe Regente, tendo em vista a ideia de que a receção passiva seria melhor para o sossego e para a tranquilidade pública. A tese dos acusadores tirava prova das Ordens (15-02-1808 e 07-03-1808) que o bispo dera para entrega do oiro e da prata das igrejas aos invasores. Facto é que, tal como a Regência, o bispo Arrais partia do princípio de perder os anéis para salvar os dedos e, tanto assim que (09-07-1808) expediu uma Pastoral contra Junot, em que explicava os motivos da sua posição anterior, e instruía os fiéis para a resistência aos invasores. Persistiu nesta posição, publicando sucessivas pastorais contra Soult e Massena; 53. D. Frei Carlos de São José de Azevedo e Moura (ou Azevedo e Sousa) (1824-1828). Pregador da capela real, acompanhou D. João VI na viagem para o Brasil, onde o monarca o pretendeu nomear (1821) bispo de Cuiabá e Mato Grosso, mas sem efeito porque o nomeado não aceitou em virtude de achar que ficava longe da pátria. Em 1823 viu-se eleito bispo da Guarda, sendo sagrado na capela da Bemposta, em 1824; 54. D. Joaquim José Pacheco de Sousa (1832-1857); 55. D. Manuel Martins Manso (1858-1878): 56. D. Tomás Gomes de Almeida (1883-1903). Apoiou a construção do Hospital da Misericórdia e do Sanatório Sousa Martins, fomentou as campanhas a favor dos doentes e dos pobres, fundou as Conferências de São Vicente de Paulo e efetuou obras na Catedral. Mereceu a admiração e o apreço até dos adversários da Igreja. Jaz na Sé da Guarda; 57. D. Manuel Vieira de Matos (1903-1914); 58. D. José Alves Mattoso (1914-1952). Este bispo contou com dois auxiliares: D. José Augusto da Rocha Noronha, e D. João de Oliveira Matos, tendo nascido em Valverde, Fundão no dia 01-03-1879 e falecido na Guarda, em 29-08-1962. Paroquiou na Covilhã e em Celorico da Beira e ensinou no seminário. Fundou a Liga dos Servos de Jesus. Tido como santo, foi grande a sua influência na espiritualidade da diocese; 59. D. Domingos da Silva Gonçalves (1952-1960); 60. D. Policarpo da Costa Vaz (1960-1979); 61. D. António dos Santos (1979-2005); 62. D. Manuel da Rocha Felício (2005-2024); 63. D. José Miguel Barata Pereira (desde 2024).  

Bibliografia consultada: História da Diocese da Guarda, de J. Pinharanda Gomes.

João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 02-04-2025)


18 de março de 2025

2025 – O ANO DE TODAS AS MULHERES E MENINAS



 O Dia Internacional da Mulher é comemorado, anualmente, a 8 de março. Este dia tem sido assinalado desde o início do século XX, embora com variações na data das celebrações. 

O Dia Internacional da Mulher pretende celebrar os direitos que as mulheres conquistaram até ao dia de hoje, relembrando o caminho para a igualdade. Defender causas como o direito ao voto, a igualdade salarial, a maior representação em cargos de liderança, a proteção em situações de violência física e/ou psicológica ou o acesso à educação continuam atuais porque, em vários pontos do globo, esses direitos continuam por cumprir.

O tema de 2025 é “Para todas as mulheres e meninas: direito, igualdade, empoderamento”.

Pretende dar continuidade a ações que promovam a igualdade de direitos, poder e oportunidades para todos, em que ninguém seja deixado para trás. No centro desta visão está a capacitação da próxima geração – os jovens, em particular as jovens mulheres e as meninas adolescentes – como catalisadores de uma mudança duradoura.

Este ano assinala-se os 30 anos da Declaração e da Plataforma de Ação de Pequim e os 50 anos da 1ª. Conferência sobre as Mulheres que se realizou no México em 1975.

A ideia de uma comemoração anual surgiu depois que o Partido Socialista da América organizou o Dia das Mulheres, em 20 de fevereiro de 1909, em Nova Iorque – uma jornada de manifestação pela igualdade de direitos civis e em favor do voto feminino. 

Durante as conferências de mulheres da Internacional Socialista, em Copenhague, 1910, foi sugerido, por Clara Zetkin, que o Dia das Mulheres passasse a ser celebrado todos os anos, sem que, no entanto, fosse definida uma data específica. A partir de 1913, as mulheres russas passaram a celebrar a data com manifestações realizadas no último domingo de fevereiro.

Em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro, no calendário juliano), ainda na Rússia Imperial, organizou-se uma grande passeata de mulheres, em protesto contra a carestia, o desemprego e a deterioração geral das condições de vida no país. Nos anos seguintes, o Dia das Mulheres passou a ser comemorado naquela mesma data, pelo movimento socialista, na Rússia e em países do bloco soviético.

Em 1975, a ONU começou a celebrar este dia a 8 de março mas só a 16 de dezembro de 1977 é que viria a ser oficialmente reconhecido pela Assembleia Geral das Nações Unidas, através da Resolução 32/142.

Atualmente a data é comemorada em mais de 100 países.

Nem sempre nos encontramos com predisposição para escrever. Ou por falta de inspiração ou de tema. Sobre a Mulher já escrevi diversos artigos em várias publicações, receando vir a reescrever parte do que tornei público. Num olhar pelo rol de alguns dos meus escritos, vieram-me à mão os títulos: “As Mais Bonitas”, in Revista da APAE Campos Melo, em 26 de junho de 2004; “A Mulher na Sociedade Covilhanense”, in Notícias da Covilhã, de 10 de abril de 2008; “O Reino das Mulheres”, in Notícias da Covilhã e Jornal do Fundão, respetivamente de 13 e 14 de junho de 2012; “A Sanção e o Sansão”, in Jornal Fórum Covilhã, de 12 de julho de 2016; “O Feminismo”, in Jornal Fórum Covilhã, de 14 de março de 2017; “A Mulher – Quando o sonho se torna uma realidade”, in Jornal “Fórum Covilhã”, de 11 de agosto de 2021; “A Rainha e o novo Rei”, in “O Olhanense”, de 15 de setembro de 2022.

Na minha vivência até aos 79 anos, dou graças a Deus por ter tido a felicidades de assistir a muito da transformação positiva na mulher. Tudo se deve à vontade indómita dela própria. Ela que foi massacrada desde os tempos bíblicos, passando por mundos velhos de mentalidade, até aos dias de hoje. E não é preciso ir longe, basta ver o tratamento ultrajante dos países muçulmanos, e não só. A escravatura foi também um terror.

O nosso país, de brandos costumes, jamais ficou livre na sua culpabilidade de tratar mal a mulher. Na ditadura, deixava para a mulher o papel mais indigno, passando ao lado da revolução sexual e de costumes que marcaram a década de 1960. E hoje? A violência doméstica grassa cada vez mais.

Mas não é tudo mau. Várias instituições cada vez mais homenageiam a mulher na sua ação em vários setores da sociedade. Não podemos esquecer a sua peculiar e forte ação na envolvente solidária, onde são dotadas dum especial carinho. Sem esquecer o seu papel de mãe e avó.

De grandes mulheres que foram esposas de nossos conterrâneos, como o médico e ativista republicano, Januário Barreto, de Aldeia do Souto, do concelho da Covilhã, conta-se o nome da médica Carolina Beatriz Ângelo, natural da Guarda, que foi a primeira eleitora portuguesa, estando associada à fundação das primeiras organizações de mulheres que, em Portugal, lutarem pelos seus direitos civis e políticos. Foi a única a exercer o direito de voto durante a I República, numa persistente batalha jurídica. Fundou a Associação de Propaganda Feminista, aproveitando-se do lapso de a lei não referir o género e, na sua condição de viúva do nosso conterrâneo, com filhos a seu cargo, e como médica, foi às urnas exercer o seu direito, em 28 de maio de 1911, para a Assembleia Nacional Constituinte. A brecha na lei definia como eleitores os cidadãos que soubessem ler e escrever e fossem chefes de família. Um ano depois, a lei foi revista para “cidadãos do sexo masculino” e as mulheres em Portugal só puderam votar e ir às urnas depois do 25 de abril de 1974.

A Assembleia da República evocou os 50 anos da universalização do direito das mulheres ao voto.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 15-03-2025)


12 de março de 2025

SÓ NESTE PAÍS



 O título desta crónica não é da minha autoria. Foi retirado do livro que acabei de ler, dos jornalistas Filipe Santos Costa e Liliana Valente. A leitura fez-me recordar muitas cenas e narrativas que ocorreram ao longo dos 50 anos de democracia. Faço parte do grupo daqueles que também viveram tempos de ditadura, como tantos portugueses.

Alguns momentos foram hilariantes, loucos, divertidos, embaraçosos e inesperados na democracia portuguesa.

Neste “faz de conta” de que tudo corre normalmente e que nada de mal nos atormenta, recordei que escrevi um artigo sob este título para este semanário, em 14 de abril de 2015.

Vasco Pulido Valente e Eduardo Prado Coelho eram os meus cronistas preferidos. Por isso, mudava de diário sempre que permutavam as suas publicações entre o Diário de Notícias e o Público.

No meio do que estou a escrever, não posso deixar de referir o estado caótico que assola o mundo, face à tensão, discussão e acusações entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky, num encontro na Casa Branca que acabou sem acordo assinado.

Surge ainda a nova polémica que fragiliza a confiança em Luís Montenegro e, simultaneamente, a visita do presidente francês, Emmanuel Macron, a Portugal, com um acolhimento extraordinário, que fez lembrar a receção calorosa da rainha Isabel II aquando da sua visita ao nosso país. 

O agravamento repentino da crise respiratória do Papa Francisco traz à memória os tempos em que frequentemente se falava sobre o estado de saúde de Salazar. O ditador foi afastado na sequência da queda de uma cadeira, no forte onde passava férias, em setembro de 1968. Operado de urgência ao cérebro, quase recuperou, mas dias depois sofreu um AVC. Esteve em coma, melhorou e voltou para a residência oficial do Presidente do Conselho. Até à sua morte, quase dois anos mais tarde, ninguém ousou dizer-lhe que já não governava. 

Voltando a Vasco Pulido Valente (VPV), o cronista político de verbo afiado, como alguns o intitulavam, apelidado de pessimista, foi crítico de todos os governos, da regionalização, de Cavaco Silva e de Mário Soares. Analisou “os portugueses” ou “os indígenas”, que “dizem mal dos outros portugueses de Portugal”. Historiador, ensaísta e escritor, Vasco Pulido Valente faleceu aos 78 anos, a 20/02/2020.

Foi da sua caneta que surgiu a célebre descrição que se colou a António Guterres, primeiro-ministro entre 1995 e 2002: “picareta falante”. Também foi ele quem usou, pela primeira vez, o termo “geringonça” para se referir ao PS, após as eleições primárias para escolha do candidato a primeiro-ministro entre António José Seguro e António Costa. Em 16 de outubro de 2015, já com “geringonça” em construção, escreveu, também no Público: “A cada erro, a cada fracasso, haverá uma tempestade geral e Costa não tem, fora da sua geringonça, em quem se apoiar”. 

Um mês depois, ainda líder do CDS e no Governo, Paulo Portas usou a expressão no parlamento para atacar a solução de governo: “O acordo de esquerda não é bem um governo, é uma geringonça”. António Costa respondeu mais tarde: “É uma geringonça, mas funciona”.

Da irrevogabilidade dos adjetivos – “Apresentei hoje de manhã a minha demissão do Governo ao primeiro-ministro. Com a apresentação do pedido de demissão, que é irrevogável, obedeço à minha consciência e mais não posso fazer”.  Este comunicado de Paulo Portas, então ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, caiu nas redações no início da tarde de 2 de julho de 2013 – um dia depois da demissão de Vitor Gaspar e poucas horas antes da tomada de posse da sua substituta, Maria Luís Albuquerque. Portas queria que a saída de Gaspar correspondesse a uma mudança de políticas, abandonando a austeridade para melhorar as perspetivas eleitorais da coligação. No entanto, a escolha de Maria Luís, fiel braço direito de Gaspar, indiciava que nada mudaria. Com um sapo por engolir, Portas anunciava a demissão. “Irrevogável”. Passos Coelho e o PSD foram apanhados de surpresa. O CDS também. Passado o choque inicial, Passos Coelho contra-atacou: não se demitia nem aceitava a demissão de Portas. O problema era aquele “irrevogável” – que, afinal, foi revogado. Portas foi promovido a vice-primeiro-ministro. O “irrevogável” durou apenas quatro dias e tornou-se uma piada que perdura até hoje.

A Luís Filipe Menezes e seu mediático frenesi seguiu-se Manuela Ferreira Leite e sua proverbial falta de jeito para a comunicação política. Fiel ao princípio de que se deve ouvir mais do que se fala, a antiga ministra das Finanças estreou-se como líder do PSD com um quase blackout mediático. MFL era vista, mas pouco se fazia ouvir, ao ponto de o Expresso lhe dedicar um artigo intitulado “A Maria silenciosa”. Depois, passou a falar mais – e a colecionar frases pouco convenientes. Num contexto de crise na Justiça, lamentou a dificuldade de fazer reformas estruturais e disse: “Até não sei se a certa altura não é bom haver seis meses sem democracia. Mete-se tudo na ordem e depois então venha a democracia”.

O monopolizador de nome de ruas. Em 2009, o presidente da Câmara de Marco de Canavezes revelou que havia cerca de 30 ruas e avenidas no concelho com o mesmo nome: Avelino Ferreira Torres. Coincidência ou não, era o nome do próprio presidente da autarquia, que governou o município por 22 anos (1983 – 2005). Durante mais de duas décadas, Ferreira Torres batizou diversos espaços públicos com o seu próprio nome. No meio de tanta toponímia repetitiva, destacava-se a Avenida Avelino Ferreira Torres, em Tuías, freguesia onde o autarca possuía uma quinta imponente, construída com recurso à mão de obra da própria autarquia. 

Por sinal, há uns anos, passei com a minha mulher e um casal amigo uns breves dias de férias num alojamento local em Tuías, cujo nome foi alvo de alguma risada durante a nossa conversa.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 12-03-2025)


6 de março de 2025

A VERDADE

 

“Por vezes, encontrar a verdade é muito mais difícil do que localizar um equívoco. Um erro tem uma manifestação mais evidente, é mais sibilante, vem à tona mais expressivamente. Já a exatidão se encontra em camadas mais profundas” – Mário Sérgio Cortella.

Frequentemente, sentimos que nos afogamos num mar de informações. Somos constantemente bombardeados por notícias de fontes inesgotáveis como jornais, revistas, rádio, podcasts, blogs, redes sociais e outras plataformas digitais. Nenhum de nós deseja ser enganado, mas distinguir a verdade da mentira é um desafio cada vez maior.

No antigo regime ditatorial, os portugueses eram iludidos quanto às perdas humanas nas antigas colónias, resultantes da Guerra do Ultramar. As famílias viviam entre o medo de jamais reverem os seus entes queridos e a esperança do seu regresso. Informações manipuladas ocultavam a verdadeira dimensão das baixas militares. Quando ocorriam um elevado número de mortes numa única operação militar, a censura impunha que a comunicação social divulgasse os falecimentos de forma espaçada, criando a ilusão de perdas menores e diluídas no tempo.

A nossa própria História de Portugal, desde os bancos do ensino primário, sempre exaltou um amor incondicional à Pátria, muitas vezes omitindo verdades incómodas.

Um dos exemplos mais paradigmáticos é o desaparecimento do rei D. Sebastião na Batalha de Alcácer Quibir, no dia 4 de agosto de 1578. Liderando pessoalmente as tropas portuguesas, D. Sebastião desapareceu no campo de batalha, e o seu corpo nunca foi identificado com segurança. Existem várias versões sobre o seu destino, sendo a mais aceite a de que morreu em combate e o seu corpo ficou irreconhecível entre os milhares de mortos. 

Algumas fontes relatam que os marroquinos entregaram um corpo que supostamente seria o do rei, que foi depois levado para Portugal e sepultado no Mosteiro dos Jerónimos. No entanto, nunca houve provas conclusivas de que os restos mortais pertenciam de facto a D. Sebastião. O jornal A Capital, na edição de 22 de agosto de 1989, citava o diário marroquino Le Matin de Sahara, de Casablanca, que afirmava ter documentos provando a entrega do corpo do rei ao governador português de Ceuta. O documento era assinado por D. Leonis Pereira, capitão e governador da praça, D. Rodrigo de Menezes e frei Roque de Spiritu Sancto, e indicava que o corpo fora depositado com solenidade no Mosteiro da Santíssima Trindade, entregue por André Gaspar Corso, numa quarta-feira, dia 6 de dezembro de 1578, nas portas da cidade, pelas 10 horas da manhã. Segundo o jornal marroquino, Portugal teria criado várias versões para manter vivo o mito sebastianista, pois aceitar a derrota era impensável para os responsáveis da época.

Independentemente da verdade, o desaparecimento de D. Sebastião originou o Sebastianismo, crença segundo a qual o rei teria sobrevivido e regressaria um dia para restaurar a glória de Portugal.

Outro caso enigmático envolve os restos mortais de D. Nuno Álvares Pereira (1360 – 1431). Após a sua morte, foi sepultado no Convento do Carmo, em Lisboa, mas o Terramoto de 1755 destruiu parcialmente o convento e o seu túmulo. Em 1951, os seus restos mortais foram transladados para a Igreja do Santo Condestável, também em Lisboa. No entanto, devido à destruição causada pelo terramoto e às sucessivas trasladações, não é possível afirmar com certeza se os ossos depositados pertencem de facto ao Condestável.

Já a sepultura de Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos baseia-se em presunção, pois nunca houve confirmação sobre a identificação dos seus restos mortais. Camões faleceu em 10 de junho de 1580, em Lisboa, em condições de extrema pobreza. Terá sido sepultado numa campa rasa na Igreja de Santa Ana, em Lisboa, ou no cemitério dos pobres do hospital local. Com o Terramoto de 1755, os túmulos que ali estavam perderam-se, incluindo o de Camões. Foram feitas tentativas para se reencontrar os despojos de Camões, todas frustradas. A ossada que foi depositada em 1880 numa tumba do Mosteiro dos Jerónimos é, com toda a probabilidade, de outra pessoa.

Por último, o corpo de Fernão de Magalhães nunca foi recuperado após a sua morte. Ele faleceu em 27 de abril de 1521, durante a Batalha de Mactan, nas Filipinas. Após o confronto, os guerreiros locais recusaram-se a entregar o seu corpo aos espanhóis, impossibilitando qualquer cerimónia fúnebre ou sepultamento adequado.

João de Jesus Nunes 

jjnunes6200@gmail.com

(In “O Olhanense”, de 01-03-2025)


19 de fevereiro de 2025

EUFEMISMOS

 

Muitas vezes, ao folhear antigas compilações, deparo-me com textos que despertam novas reflexões. Foi o que aconteceu recentemente, quando me veio à mão um artigo de Fernanda Sampaio, publicado no Jornal do Fundão há décadas, abordando o tema dos eufemismos. Embora o texto tenha sido escrito num outro tempo, a verdade é que a tendência de suavizar a realidade através da linguagem continua mais viva do que nunca. 

A sociedade sempre encontrou formas de amenizar as palavras para tornar certas verdades mais aceitáveis. Mas, se antes os eufemismos surgiam sobretudo por questões de pudor ou respeito, hoje parecem multiplicar-se para mascarar realidades desconfortáveis. As coisas continuam as mesmas, apenas disfarçadas por novas designações.

Nos dias de hoje, o simples ato de substituir uma palavra pode transformar completamente a perceção de um conceito. Já não há desempregados, mas sim pessoas “em transição de carreira”. As escolas degradadas passaram a ser “estabelecimentos de ensino em requalificação”. Até os bêbedos passaram a ser chamados de alcoólicos e os drogados, toxicodependentes. Os doentes nos hospitais e centros de saúde agora são utentes. Os trabalhadores foram dispensados em vez de despedidos. Parece que, ao alterar as palavras, suavizamos a realidade, mas será que mudamos verdadeiramente o que está por detrás delas?

Os eufemismos infiltraram-se em todas as áreas do quotidiano. Nos discursos políticos, os “ajustes fiscais” escondem aumentos de impostos, e “as medidas de contenção” significam cortes nos serviços públicos. No mundo empresarial, um “despedimento coletivo” é apresentado como “reestruturação organizacional”.

A linguagem burocrática também encontrou nos eufemismos uma forma de disfarçar a rigidez do sistema. Os idosos são “seniores”, os pobres são “economicamente desfavorecidos” e as crianças com dificuldades escolares são “alunos com necessidades educativas específicas”. No fundo, cria-se um vocabulário que, em vez de resolver os problemas, apenas os disfarça.

Com a revolução digital e o crescimento da Inteligência Artificial, os eufemismos ganham novas dimensões. Já se fala em “profissões do futuro”, quando, na realidade, muitas funções atuais simplesmente desaparecerão. A própria IA é apresentada como uma “assistência cognitiva”, quando, na prática, está a substituir cada vez mais a intervenção humana. 

Foi com bastante interesse sobre este tema que foi debatido o programa da RTP 1 “É ou não é”, com o jornalista e apresentador Carlos Daniel, na noite do passado dia 4 de fevereiro. Falou-se: “Novos empregos que vão surgir e outros que vão desaparecer” – “Futuro Trabalho: Há emprego para todos?”. E, na Antena 1, da manhã do dia seguinte, o debate no programa “Consulta Pública”, moderado pela jornalista Sofia Freitas, onde se referia também a criação do Chat GTP português “Amália”. Temas de grande relevância para os tempos atuais.

Como bem refere António Barreto, no Público, “o mundo sempre mudou, mas hoje muda a uma velocidade que não permite adaptação”. No meio deste turbilhão, resta-nos questionar: estamos apenas a mudar palavras ou a esconder realidades? Talvez seja tempo de refletir sobre o verdadeiro impacto dos eufemismos na forma como percebemos o mundo.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com


(In “O Olhanense”, de 15-02-2025)



13 de fevereiro de 2025

JORNAL DO FUNDÃO SEMPRE NO TEMPO DO SEU TEMPO

 

Nasceu dois meses antes de mim. Desde a minha adolescência e juventude, logo que comecei a ler o primeiro jornal, ainda uma criança, por sinal, um diário, acompanhei o que se escrevia no Jornal do Fundão. Foi então na Biblioteca Municipal da Covilhã, situada frente ao Jardim Público, para onde ia estudar. Estava ávido de notícias novas sobre a Covilhã e região, onde se falava também muito das vedetas do meu clube de sempre. Com o passar do tempo, temas marcantes começaram a captar a minha atenção: a Região Beirã, a Serra da Estrela e a vida citadina da época. Acompanhava de perto a atividade académica do Liceu, da Escola Industrial e Comercial Campos Melo e do Colégio Moderno, bem como as festividades da sede e das aldeias do concelho. Não faltava falar das Feiras Popular, de São Tiago e de São Miguel. Também os acidentes rodoviários, e de aviação, como a queda da avioneta onde ia o Matos Soares; e os dois autocarros que, por duas vezes, bem distanciadas as datas, se despenharam na Serra da Estrela. Sem esquecer as mensagens dos que se encontravam nas guerras do Ultramar; o sentimento nostálgico dos emigrantes, e, mais tarde, o flagelo dos incêndios na Serra da Estrela.

Em tempo de ditadura, as notícias, possíveis, sobre as candidaturas à presidência da República, onde ressaltou a do general Humberto Delgado. Mas também a visita ao Jornal do Fundão do então ex-presidente da república brasileira, Juscelino Kubitschek de Oliveira, em janeiro de 1963, a convite do Diretor do Jornal, António Paulouro. O ditador Salazar ficou furioso e nunca mais esqueceu a partida que o grande estadista e o grande jornalista lhe pregaram, ordenando a censura de qualquer referência à visita.

Depois o grito pungente perante o problema da silicose nas Minas da Panasqueira. Vim a conhecer os efeitos nefastos desta doença profissional já na minha então nova profissão, pagando pensões de viuvez a várias viúvas, mulherzinhas pobres vindas das aldeias do Couto Mineiro.

Sem esquecer a persistência para que se abrisse um túnel na Serra da Gardunha – o Túnel da Gardunha; assim como a defesa da necessidade de renovar a linha da Beira Baixa, da eliminação do serpentear de estradas escabrosas do acesso rodoviário a esta região, com a construção de uma via rápida do Portugal Sul para o Portugal Interior e vice-versa, não faltando as terras com a necessidade de um regadio, donde viria a surgir o Regadio da Cova da Beira. E por aí fora. 

Numa retrospetiva, durante o meu serviço militar, e por períodos um pouco mais longos de ausência da Covilhã, pedia para me enviarem o Jornal do Fundão.

Acompanhei também a suspensão deste semanário pelo Estado Novo quando, à saída da Câmara Municipal da Covilhã, onde então me encontrava a trabalhar, o porteiro mostrava o jornal onde vinha a notícia sobre o Grande Prémio de Novela atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores ao escritor Luandino Vieira que se encontrava detido no Tarrafal por atividades consideradas subversivas pelo regime. Soube-se então que esse “crime” de divulgação pelo Jornal do Fundão lhe custaria uma longa suspensão – seis meses. Estávamos no mês de maio e, nessa altura, eu participava pela equipa do Estrela de São Pedro, no Torneio Primavera, em andebol, no Pavilhão do Clube Desportivo da Covilhã, nos Penedos Altos. Num dos intervalos recordo-me da preocupação que envolvia colaboradores do Jornal do Fundão, como os falecidos António José Martinho Marques e Francisco Marques Portela, assim como o José Pinheiro da Fonseca, com a suspensão deste semanário, sugerindo uma subscrição para colmatar este problema grave originado pela ditadura salazarista. 

Seria demasiado extenso enumerar todas as ações do Jornal do Fundão ao longo do tempo, mas não posso olvidar as páginas culturais na leitura de crónicas de Arnaldo Saraiva, Baptista Bastos, já falecido, ou Carlos Esperança, e muitos outras ilustres figuras da Cultura portuguesa, que me encheram de interesse pelas mesmas. 

Acompanho com interesse os textos de Nuno Francisco, Maria Antonieta Garcia e Luís Pereira Garra, assim como, quando em vida, acompanhava os de Fernanda Sampaio, José Pedro Machado e Ernesto de Melo e Castro. Não nomeio todos, mas respeito diferentes estilos, mesmo aqueles que não são da minha preferência. 

Embora não seja o periódico onde tenho mais textos publicados, ainda assim registo sete dezenas de páginas onde tive o privilégio de ver colaboração que me diz respeito. 

Está de parabéns o Jornal do Fundão. Desejo que se mantenha mesmo neste mar encapelado a prosseguir entre a revolução do papel e do digital, em prol dos interesses deste interior beirão. 


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com

(In “Jornal do Fundão”, de 13-02-2025)


5 de fevereiro de 2025

A BANDA QUE PASSA

 


Quando começar a ler esta crónica já foi arrancada mais uma folha do calendário. Janeiro, implacável, dissipou-se. Deixou o início do ano gélido e perigoso.

Entre tempestades e bonanças, vamos caminhando neste mundo e, para nós, no país mais antigo da Europa. No meio deste cenário de turbulências políticas e sociais, a vida segue o seu curso, tal como uma banda que passa, cantando coisas de amor e, quem sabe, também de ironia.

Enquanto os dias avançam, surge um país inquieto, onde políticos e cidadãos assistem, cada um à sua maneira, ao desenrolar dos acontecimentos.

Chico Buarque vem para esta metáfora como o impulsor: “Estava à toa na vida/O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor”. 

A flauta, o clarinete, a trompete e o trombone integram-na melodiando a descida da criminalidade violenta na área de responsabilidade do Comando Metropolitano de Lisboa (COMETLIS) da Polícia de Segurança Pública. Diz respeito ao ano passado em relação a 2023.

A banda continua na sua marcha: “A minha gente sofrida/Despediu-se da dor/Pra ver a banda passar/Cantando coisas de amor”.

Com este estribilho, corre Carlos assustado, deixa cair as Moedas, afrontado. Nem sequer vê o bombo e, muito menos o tambor. Mas logo agarra nos pratos e grita que não é verdade. É um inconcebível lapso do subintendente Rui Costa. “Estes números são positivos, mas não nos tranquilizam. Há fenómenos que existem quer na cidade de Lisboa, quer nos concelhos limite, que nos levam a ter algumas preocupações e cautela em desenhar outro tipo de estratégias no combate ao crime”.  

E a banda prossegue: “O homem sério que contava dinheiro parou/O faroleiro que contava vantagem parou/ A namorada que contava as estrelas/ Parou para ver, ouvir e dar passagem”. 

Ter-se-á recordado do homem de Boliqueime. Em 2004 dizia que estava a aplicar-se à vida política a lei económica de Gresham, segundo a qual “a má moeda expulsa a boa moeda”, ou, neste caso, “os agentes políticos incompetentes afastam os competentes”.

A banda continua: “A moça triste que vivia calada sorriu/A rosa triste que vivia fechada se abriu/E a meninada toda se assanhou/ Pra ver a banda passar/cantando coisas de amor”.

O som, agora mais voltado para a improvisação e harmonia. Além-fronteiras, Donald Trump, sempre pronto para o espetáculo, sopra no saxofone e carrega na bateria, depois de ter ensaiado o regresso ao palco. Tenta afugentar os “forasteiros” que o incomodam. Começa a tentar organizar uma enorme orquestra. Para agradar a todos os humanos.

“A minha gente sofrida/Despediu-se da dor/Pra ver a banda passar/Cantando coisas de amor”.

Quere a Gronelândia e o Canal do Panamá, por isso, a banda canta-lhe: “O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou/Que ainda era moço pra sair do terraço e dançou/A moça feia debruçou na janela/Pensando que a banda tocava pra ela”.

É então que surge Miguel Arruda, protagonista dos furtos nas zonas de bagagem açorianas, sem vigilantes. Surripia malas. É o pilha-galinhas da política nacional, lembrando-nos que neste país de brandos costumes, nem sempre a vigilância está onde deveria estar.

“A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu/A Lua cheia que vivia escondida surgiu/Minha cidade toda se enfeitou/Pra ver a banda passar cantando coisas de amor”.

É quando Mariana Mortágua vem, finalmente, reconhecer “erros” e “falhas” do partido no processo de despedimentos de trabalhadores na sequência da queda eleitoral. 

Entre escândalos e pequenas tragédias, a banda continua a tocar, indiferente às histórias que se cruzam no seu caminho.

Finalmente:

“Mas para meu desencanto/O que era doce acabou/Tudo tomou seu lugar/Depois que a banda passou. / E cada qual no seu canto/Em cada canto uma dor/Depois da banda passar/Cantando coisas de amor”.


João de Jesus Nunes

jjnunes6200@gmail.com


(In “Jornal Fórum Covilhã”, de 05-02-2025)